Lançamento

Ter internet em casa, um celular na mão e horas de tela por dia deveria ser, no discurso corrente, o passaporte de uma geração inteira para o futuro. Mas e se essa promessa esconder uma armadilha? É essa suspeita que anima Conectados e desiguais: o saber tecnológico como capital invisível entre a juventude, a formação técnica e o mundo do trabalho, novo título de Denis Cleuder da Silva que chega ao catálogo para desmontar, com paciência de pesquisador, a ideia de que estar conectado é o mesmo que saber. O livro parte de uma constatação incômoda: num país profundamente desigual, o acesso à tela não distribui igualmente o que a tecnologia realmente oferece.
Um saber que não cabe no botão de ligar
A primeira contribuição da obra é conceitual, e vale a leitura só por ela. Silva recusa tratar o domínio das tecnologias como uma habilidade técnica isolada e propõe pensar o saber tecnológico como algo multidimensional, feito de três camadas que se entrelaçam: a técnico-operacional (saber usar as ferramentas), a disposicional (as posturas cognitivas e cotidianas diante delas) e a simbólico-distintiva (o valor social que esse saber carrega e que separa quem tem de quem não tem). O ponto decisivo é que essas dimensões são relacionais e nunca neutras. O autor formula a definição com precisão de ensaísta:
"O saber tecnológico, como aqui o entendemos, é a capacidade de compreender, utilizar, questionar e ressignificar as tecnologias digitais como mediadores de práticas sociais, profissionais e culturais."
Repare no verbo questionar. É ele que distingue o saber tecnológico da mera competência digital ou da fluência em ferramentas específicas. Saber apertar botões não é o mesmo que compreender as regras do jogo em que esses botões estão inseridos, e o livro faz dessa diferença o seu fio condutor.
O mito do nativo digital, desmontado
Se há uma crença que a obra combate com método, é a do jovem que já nasce sabendo. O capítulo dedicado à juventude trata essa categoria como heterogênea, atravessada por desigualdades sociais, econômicas, raciais, territoriais e de gênero que antecedem qualquer experiência escolar. A tese é direta e desconfortável: a conectividade e o uso diário de dispositivos não garantem domínio técnico, capacidade crítica nem apropriação produtiva das tecnologias. Rolar um feed com desenvoltura não é programar, não é interpretar, não é criar. O suposto nativo digital, quando examinado de perto, revela-se um retrato médio que apaga as distâncias reais entre os jovens.
Antes disso, o livro já havia preparado o terreno ao discutir a Teoria do Capital Humano e a educação por competências. A crítica de Silva recai sobre a redução da formação à empregabilidade e sobre a responsabilização individual que dela decorre: se o mercado exige e você não corresponde, a culpa passa a ser sua. É aí que o autor cravam uma de suas frases mais afiadas sobre o papel da escola técnica.
"Quando a escola técnica trata essa desvantagem como se fosse equivalência, como se todos os alunos chegassem ao mesmo ponto de partida, ela não democratiza o capital tecnológico: ela certifica a desigualdade já existente com o selo da meritocracia."
Bourdieu, a mídia e a corrida que já começa vencida
O coração teórico do livro articula Pierre Bourdieu e Jean-François Lyotard para ler o saber tecnológico como capital cultural, distribuído de forma desigual e legitimado por três instâncias que agem em conjunto: o mercado, a escola e a mídia especializada. Aqui entra o material empírico mais original da obra, um estudo cuidadoso do discurso das principais revistas brasileiras de gestão e recursos humanos. Silva mostra como as narrativas da escassez de talentos digitais, do medo da obsolescência profissional e da sedução dos ambientes de trabalho inovadores operam menos como convites à inclusão e mais como mecanismos de distinção social. Elas nomeiam quem vale e quem não vale, e o fazem muito antes de qualquer sala de aula.
A chegada da inteligência artificial, longe de corrigir o quadro, o aprofunda. A corrida por novas habilidades favorece quem já parte da largada com vantagem estrutural, transformando o que é herança social em aparência de mérito pessoal. O leitor sai desse capítulo entendendo por que as regras de valorização do saber tecnológico foram escritas fora dos muros da escola, e por que isso importa tanto.
Hortolândia como laboratório do país
Para não ficar no plano das ideias, o autor ancora a discussão num estudo de caso concreto: a ETEC de Hortolândia, seus cursos, seus estudantes, seus projetos e suas relações com empresas. O retrato é honesto nos dois sentidos. Há oportunidades formativas reais, mobilidade possível, portas que se abrem. Mas há também a reprodução silenciosa das desigualdades, e é sobre esse ponto que recai a observação mais fina do livro:
"A escola estimula o saber tecnológico, mas raramente o problematiza. Ela forma jovens para acumular um capital cultural cujas regras de valorização foram definidas fora de seus muros; raramente oferece a esses jovens as ferramentas críticas para questionar essas regras."
O diagnóstico não é uma acusação à escola técnica, e sim um convite para que ela vá além do treinamento. Formar para operar tecnologias sem formar para interrogá-las, sugere Silva, é entregar aos jovens um capital cujo preço eles não controlam.
Sete propostas e uma aposta na vida
É nas considerações finais que a obra revela seu compromisso. Retomando o saber tecnológico como promessa e como pressão ao mesmo tempo, o autor conclui com sete propostas para uma educação profissional que não abra mão da formação humana em nome da formação para o mercado. A palavra final sintetiza a virada de perspectiva que o livro persegue do começo ao fim: o saber tecnológico deve ser entendido
"não como uma dotação natural dos jovens, não como uma mercadoria a ser entregue pelas escolas às empresas, não como um critério de mérito individual, mas como um capital cultural que precisa ser produzido, distribuído e criticado de forma justa", escreve o autor.
O tom é acadêmico, crítico e ensaístico, cruzando sociologia da educação, análise documental e estudo de caso sem perder legibilidade. Por isso a obra fala tão diretamente a educadores, gestores escolares, formuladores de políticas públicas, pesquisadores e a todos os profissionais que lidam com juventude, educação profissional, tecnologia e mundo do trabalho. Quem atua na ponta encontrará vocabulário para nomear o que já intuía; quem pensa políticas encontrará um mapa das engrenagens que convertem desigualdade em suposto mérito. Denis Cleuder da Silva (que compartilha reflexões no perfil @deniscleuder) entrega, ao fim, uma tese que ultrapassa a escola técnica: antes de preparar para o trabalho, a educação precisa ser capaz de preparar para a vida. O convite está feito, e a leitura é das que reorganizam o modo de olhar.
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