Lançamento

Capa do livro Nutrição e psicanálise: um encontro transformador
Nutrição e psicanálise: um encontro transformador, de Denise Giacomo Da Motta · Editora Dialética

Há uma cena que todo consultório de nutrição conhece: a pessoa senta, descreve o que come, promete o que vai comer, e mesmo assim algo escapa do registro das calorias e dos horários. É exatamente nesse ponto de fuga que Nutrição e psicanálise: um encontro transformador, obra organizada por Denise Giacomo Da Motta com outras autoras e um autor, decide morar. O livro, que agora chega ao catálogo da Editora Dialética, parte de uma aposta simples de enunciar e vertiginosa de praticar: comer é linguagem, e o profissional que só ouve o nutriente perde a metade mais importante da conversa.

Comer não é só nutrir, e esse deslocamento muda tudo

A tese que sustenta a obra é anunciada logo nas primeiras páginas e reverbera em cada capítulo. A alimentação humana não se reduz à ingestão de substâncias nem à satisfação de uma necessidade biológica: ela é atravessada por desejos, afetos, fantasias, vínculos, cultura e significados inconscientes. O livro faz questão de marcar essa virada com clareza quase provocativa.

"Mas comer é muito mais do que ingerir as substâncias provenientes dos alimentos! O ato de comer vai além do nutrir."

A frase, extraída da introdução, funciona como chave de leitura de tudo o que vem depois. Se comer excede o nutrir, então o sintoma alimentar também excede o diagnóstico. Aqui a obra convoca a psicanálise para uma tarefa que a abordagem organicista costuma dispensar: entender que um comportamento alimentar pode não ser, em si, uma doença a ser corrigida, mas uma solução, uma mensagem, ou a forma que o sujeito encontrou para evacuar uma tensão psíquica que de outro modo seria insuportável. Escutar antes de prescrever passa a ser, nessa lógica, um gesto clínico e não apenas gentileza.

Do seio ao prato: como o corpo se constrói na linguagem

A arquitetura do livro é cuidadosa e mostra que a proposta não é retórica. Depois da apresentação e do prefácio, que defendem a aproximação entre as duas áreas, e de uma introdução que apresenta a alimentação como experiência ao mesmo tempo biológica, afetiva, cultural e inconsciente, o segundo capítulo recua até a origem. Nele, as autoras e o autor relacionam alimentação, constituição do corpo erógeno, vínculo materno, pulsão e introjeção, lembrando que o primeiro alimento é também a primeira relação e que a boca inaugura, muito antes do gosto, uma forma de incorporar o mundo ao eu.

É desse solo freudiano, ampliado por contribuições pós-freudianas, que emerge a noção mais fértil da obra: o corpo apresentado não apenas como organismo, mas como corpo tomado pela linguagem, pelo desejo e pela construção da imagem corporal. Não se trata de negar a fisiologia, e sim de recusar que ela seja a última palavra sobre o que uma pessoa faz com a comida.

O corpo que come, o que não come, o que fala e o que cala

O terceiro capítulo é talvez o coração teórico do livro, e seu título já é um pequeno tratado: O corpo que come, o corpo que não come, o corpo que fala e o corpo que cala. Ali, transtornos alimentares, imagem corporal, obesidade e sintomas corporais são lidos em perspectiva multifatorial, longe de qualquer explicação única. A obra recusa a chamada medicalização do comer, essa tendência de traduzir todo sofrimento alimentar em protocolo, meta e correção, e propõe em seu lugar uma escuta que reconheça no sintoma uma fala.

"As perturbações do comer, quando escutadas para além da lógica nutricional normativa, pode revelar-se como um sintoma que fala do sujeito e de sua relação com o desejo."

Essa é a passagem que melhor sintetiza a mudança de perspectiva. O sintoma deixa de ser um erro a ser eliminado e passa a ser um texto a ser lido junto com quem o produz. A obesidade e os transtornos alimentares, nesse enquadre, ganham espessura histórica e relacional: deixam de ser números e voltam a ser vidas.

Casos, silêncios e a clínica que se deixa afetar

Para que a teoria não flutue, o quarto capítulo desce aos relatos de casos clínicos, construídos como ficções baseadas em experiências reais. É neles que o argumento respira. Dores, recusas, compulsões e alterações corporais aparecem articuladas a experiências precoces, vínculos familiares e afetos que nunca chegaram a ser simbolizados. O leitor acompanha como um silêncio à mesa, uma somatização recorrente ou um padrão alimentar aparentemente inexplicável podem estar dizendo, de outro modo, aquilo que o sujeito ainda não conseguiu colocar em palavras. A própria apresentação define bem de onde nasce esse material.

"É um livro que nasce da prática clínica, do encontro com corpos que pertencem a pessoas que falam mesmo quando silenciam, corpos que carregam histórias, sintomas, memórias e marcas."

Os capítulos seguintes expandem essa clínica para fora do consultório individual. O quinto discute a Educação Alimentar e Nutricional à luz da psicanálise, criticando o modelo normativo e prescritivo e propondo práticas dialógicas, não julgadoras, centradas na autonomia e na singularidade de cada pessoa. O sexto, sob a bela imagem de desvelar o que está "além da ponta do iceberg", relata experiências educativas em saúde coletiva e na clínica, com ênfase na escuta, na participação e na elaboração dos sentidos do adoecimento. Não é pouca coisa: a obra sustenta que mudanças alimentares consistentes exigem que o sujeito participe ativamente da construção das próprias escolhas, em vez de recebê-las prontas.

O nutricionista também se olha no espelho

Um dos gestos mais corajosos do livro está nos dois capítulos finais, que viram o foco para o próprio profissional. O sétimo trata da intersubjetividade na clínica nutricional, discutindo transferência, contratransferência, preconceito profissional e a necessidade de supervisão e autoconhecimento na formação. A obra afirma, sem rodeios, que o cuidado nutricional exige que o profissional examine seus próprios afetos, conflitos e preconceitos em torno da comida e do corpo, sob pena de repetir com o outro aquilo que não elaborou em si. O oitavo capítulo reúne depoimentos de nutricionistas sobre grupos de estudos, num registro testemunhal que mostra, na prática, como a escuta transforma a clínica e a compreensão do alimento como expressão de afetos, histórias e relações.

Vale sublinhar um cuidado que percorre o volume: a aproximação entre as áreas não pretende substituir a atuação multiprofissional em situações de risco, e sim ampliá-la. Técnica e escuta caminham juntas.

Para quem lê o corpo além do prato

Escrito em tom ao mesmo tempo teórico, ensaístico e testemunhal, o livro fala diretamente a nutricionistas, psicanalistas, psicólogos, educadores em alimentação e nutrição, estudantes e profissionais da saúde, além de qualquer leitor interessado no comportamento alimentar e na prática clínica interdisciplinar. Sua promessa final é sóbria e generosa: o cuidado nutricional se torna mais efetivo quando alia domínio técnico e escuta clínica, ajudando a pessoa a produzir sentido sobre o próprio comer e a fazer escolhas mais singulares e sustentáveis. Sob a organização de Denise Giacomo Da Motta, Nutrição e psicanálise: um encontro transformador convida quem trabalha com alimentação a fazer o mesmo que pede aos seus pacientes: parar, escutar e reconhecer que, no prato como no silêncio, há sempre um sujeito falando.

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Nutrição e psicanálise: um encontro transformador já está disponível na loja oficial da Editora Dialética.

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