Lançamento

Há um paradoxo no coração do mundo corporativo contemporâneo: quanto mais fórmulas de sucesso são lançadas, mais rapidamente elas envelhecem. É contra essa lógica de ferramentas descartáveis que se ergue Pedagogia do empreendedor: a importância da mitologia e da filosofia no contexto da liderança, da gestão e do empreendedorismo no mundo corporativo, novo título que chega ao catálogo pelas mãos de Ubiratan Trindade, doutor em filosofia e empresário. A proposta é tão simples quanto ousada: em vez de mais uma receita, o autor oferece uma formação. Em lugar do atalho, a bússola. E para desenhá-la, recorre a Ulisses, Prometeu, Sócrates e Aristóteles como se fossem, todos eles, consultores convocados para a mesa de reunião.
Uma bússola forjada na tradição, não mais uma receita
O ponto de partida do livro é uma inversão conceitual. Trindade não trata o empreendedorismo como fenômeno econômico recente, mas como uma prática humana antiga, ligada à criação, à inovação e à adaptação cultural. Já na introdução, ele redefine o próprio verbo que dá nome à obra:
"Empreender significa o ato de desvelar: trazer para fora aquilo que está oculto aos olhos de todos, descobrir, tirar a cobertura, remover o véu de produtos ou serviços"
Desvelar, portanto, é a arte de enxergar oportunidade onde os outros só veem problema. E é justamente essa capacidade que, segundo o autor, não se ensina por meio de planilhas ou frameworks passageiros. O que o livro promete cultivar é outra coisa, mais profunda e mais durável. Nas palavras do próprio texto, o que a filosofia e a mitologia oferecem é a formação de uma mente arrojada, dotada de uma estrutura interna capaz de suportar os choques da jornada. Essa é a tese que sustenta todo o edifício: a excelência empreendedora depende da aquisição de areté, isto é, virtude, conhecimento, disciplina e caráter, e não da espera passiva pela sorte.
Ulisses, Sísifo e a luta diária contra o caos
A primeira metade da obra é uma travessia pela mitologia grega, e nela cada mito funciona como um estudo de caso disfarçado de narrativa. No capítulo dedicado à conceituação geral, Trindade mobiliza noções como hybris, areté e a oposição entre caos e cosmos para pensar liderança, gestão e educação. A síntese é enfática:
"A vida de um empreendedor resume-se a uma luta diária para impor o Cosmos sobre o Caos."
Dessa moldura, o autor extrai figuras que percorrem o restante do volume. A Odisseia de Ulisses vira lição de resiliência, estratégia, prudência e vocação, o retrato de quem supera obstáculos aparentemente intransponíveis sem perder o rumo de casa. Sísifo, condenado a empurrar a pedra montanha acima, ilumina a dimensão menos glamourosa do empreender: a repetição das tarefas diárias e a persistência que elas exigem. Já a dupla Eco e Narciso serve de advertência contra o egocentrismo, o culto de si e a concentração de conhecimento e poder, males que corroem líderes por dentro.
O percurso mítico ainda passa por Dédalo e Ícaro, que encarnam a inovação e o excesso de confiança, e apontam a necessidade de limites éticos no uso das tecnologias; por Prometeu, associado à ciência, à antecipação de cenários e à preparação responsável para o poder; e por Apolo, modelo de ordem, harmonia e organização estética de pessoas e empresas. Em cada um deles, o mesmo movimento se repete: o mito não é ornamento erudito, mas ferramenta de leitura do presente.
Dos pré-socráticos a Foucault, um curso de filosofia aplicada
A segunda metade do livro troca os deuses pelos pensadores, e o resultado é uma espécie de curso acelerado de história da filosofia orientado para a decisão. Trindade começa pelos pré-socráticos, referências de razão, visão e mudança, e avança para Sócrates, cujo não-saber e cuja maiêutica são convertidos em método de gestão pelo diálogo. De Platão, aproveita o mundo das ideias, a teoria e o mito da caverna como metáforas da visão empreendedora; de Aristóteles, faz um verdadeiro conselheiro de empresas que buscam a excelência, valorizando experiência, conhecimento e boas escolhas.
A lista segue larga e generosa. As escolas helenísticas do cinismo, epicurismo e estoicismo comparecem para pensar a afirmação do indivíduo diante da adversidade. Maquiavel aporta o realismo da virtù e da fortuna e a leitura fria da imprevisibilidade. Nietzsche entra com a afirmação da vida, a vontade de potência e a superação do vitimismo. Foucault problematiza poder, autoridade, liberdade e responsabilidade no mundo corporativo, tangenciando liberalismo e neoliberalismo. E, num gesto que amplia o horizonte para além do Ocidente, o confucionismo surge como referência de ética, educação e gestão. É um catálogo de vozes que raramente convivem num mesmo manual de negócios, e essa convivência é, em si, parte do argumento.
Contra a arrogância do algoritmo
Se há um fio que costura mitos e filósofos ao longo de todo o livro, ele é a desconfiança em relação à hybris. Entendida como arrogância, ganância e excesso de confiança, ela é apresentada como a ameaça permanente a indivíduos, organizações e negócios. Contra ela, o autor propõe os antídotos clássicos: prudência, autoconhecimento e phronesis, a sabedoria prática que sabe agir na hora certa.
Esse mesmo cuidado orienta a discussão sobre a técnica. Trindade reconhece o poder da ciência e da tecnologia, mas recusa a ideia de que elas bastem para orientar a vida corporativa. O futuro, argumenta, exigirá pensamento crítico, criatividade, responsabilidade ética e cuidado de si. Não à toa, os capítulos finais deslocam-se para terrenos bem concretos: o empreendedorismo sustentável e a conciliação entre economia e meio ambiente; o cuidado de si e o equilíbrio emocional como condição para governar pessoas; e até a educação financeira, com defesa de fundo de emergência, planejamento de longo prazo e preparação autônoma para a aposentadoria. A sabedoria antiga, aqui, desce da montanha e chega à conta bancária.
Um guia de formação humana para quem lidera
A conclusão retoma a imagem que atravessa o volume: empreender é uma disposição humana, e cada trajetória profissional é uma jornada rumo à própria Ítaca. Mais do que um livro de gestão, Pedagogia do empreendedor se apresenta como um guia de formação humanista, endereçado a um público bem definido: líderes que desejam decidir com lastro, gestores cansados de modismos e, sobretudo, jovens empreendedores em busca de uma base que não expire na próxima temporada de tendências.
A contribuição de Ubiratan Trindade está menos em oferecer respostas fechadas e mais em restituir ao empreendedor um repertório que o mercado costuma ignorar. Ao aproximar a caverna de Platão da estratégia de mercado e a coragem de Ulisses da superação de crises, o autor lembra que os grandes dilemas da liderança são, em essência, antigos, e que já foram enfrentados por mentes admiráveis. Quem quiser governar a própria jornada com ética e discernimento tem, agora, na estante da editora, um convite para embarcar nessa viagem no tempo. É uma leitura que enriquece tanto a biblioteca de negócios quanto a de humanidades, e que dificilmente deixará o leitor enxergar o ato de empreender do mesmo jeito.
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Pedagogia do empreendedor: a importância da mitologia e da filosofia no contexto da liderança, da gestão e do empreendedorismo no mundo corporativo já está disponível na loja oficial da Editora Dialética.
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