Lançamento

Antes dos exames de imagem e dos laudos laboratoriais, havia o médico diante do paciente: olhos atentos, mãos que examinavam, ouvidos que escutavam queixas e procuravam indícios. Essa arte de reconhecer a doença por seus sintomas e sinais tem uma longa trajetória, e é ela que chega agora ao catálogo com De Hipócrates a Jairo Ramos: história da semiologia e da propedêutica médica, de Afonso Carlos Neves. A obra é o primeiro livro dedicado exclusivamente à história da semiologia, campo que estuda os sintomas e sinais das doenças, e preenche uma lacuna que a historiografia médica ainda não havia enfrentado de forma específica.
Um percurso de séculos para entender o gesto clínico
O problema que o livro enfrenta é tão fundamental quanto pouco explorado: de onde vem a prática de observar o paciente para chegar a um diagnóstico? Para responder a essa pergunta, o autor recua até a medicina egípcia e a medicina grega, buscando o que já poderia haver de "semiológico" nessas tradições antes mesmo de o termo existir.
Nesse caminho, Hipócrates aparece como ponto de partida inevitável. Em uma obra que reconstrói um trajeto histórico da medicina, os sintomas e sinais que o médico grego observava formam a base sobre a qual se ergue o restante da narrativa. Dali, a investigação avança até o Renascimento, período em que o termo "semiologia" propriamente dito começa a se consolidar.
O resultado é uma linha do tempo que mostra como uma atividade aparentemente simples, a de olhar e examinar, foi ganhando nome, método e lugar no ensino médico ao longo dos séculos.
Do leito italiano às salas da Escola Paulista
Um dos méritos da obra está em trazer à tona dados que marcaram a história da medicina, mas que costumam circular pouco. É o caso do início do chamado ensino à beira do leito, atribuído ao italiano Da Monte, em meados do século XVI. A ideia de formar médicos junto ao paciente, e não apenas a partir dos textos, ganha no livro o destaque que raramente recebe.
Contar a história da semiologia é contar como a medicina aprendeu a confiar no próprio olhar antes de confiar nas máquinas.
O percurso então atravessa o Atlântico. No Brasil, o autor identifica a "Escola de Lemos Torres", marcada por um mestre que inovou para além dos paradigmas escritos nos livros. Foi com ele que se formou Jairo Ramos, figura que dá nome ao ponto de chegada da obra.
Por que terminar em Jairo Ramos
A escolha não é casual. Jairo Ramos é apresentado como o ápice do exercício de obter sinais e sintomas sem recorrer a exames subsidiários. Seu trabalho deixou uma marca tão profunda que mobilizou toda uma escola médica, a Escola Paulista de Medicina, em torno do aprimoramento da atividade semiológica. Na época, essa atividade era muito chamada de "Propedêutica Médica", justamente por representar a iniciação do estudante de medicina na prática clínica propriamente dita.
Ao encerrar a narrativa nesse ponto, o livro sugere uma reflexão oportuna: o que se ganha, e o que se arrisca perder, quando a escuta e o exame do paciente cedem espaço à tecnologia diagnóstica?
Uma leitura para quem forma, pratica e pesquisa medicina
A obra interessa a públicos diversos. Para estudantes de medicina, oferece as raízes históricas da disciplina com que começam a prática clínica. Para docentes, é material valioso para contextualizar o ensino da propedêutica. Para médicos em atividade, é um convite a revisitar o fundamento do próprio ofício.
- Estudantes encontram a origem dos gestos que aprendem nas primeiras aulas práticas;
- Professores ganham subsídios para discutir a tradição do ensino à beira do leito;
- Historiadores da ciência e da saúde dispõem de um estudo inédito em seu recorte temático;
- Leitores interessados em medicina acompanham uma narrativa que vai do Egito antigo à São Paulo do século XX.
Afonso Carlos Neves, que também compartilha seu trabalho no Instagram (@afonsocarlosneves), entrega uma contribuição que dialoga com a história da medicina brasileira e mundial ao mesmo tempo. Ao reunir em um só volume a trajetória da semiologia, o livro recupera a memória de mestres e escolas e reafirma o valor do encontro clínico como ponto de partida de todo diagnóstico.
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De Hipócrates a Jairo Ramos: história da semiologia e da propedêutica médica já está disponível na loja oficial da Editora Dialética.
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