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Capa do livro Feche os olhos para ver: cura e libertação
Feche os olhos para ver: cura e libertação, de Mozelia de Almeida Pereira · Editora Dialética

Há livros religiosos que consolam e livros que confrontam. Feche os olhos para ver: cura e libertação, novo título de Mozelia de Almeida Pereira a chegar ao catálogo, pertence claramente ao segundo grupo. Logo em suas primeiras páginas, a autora desmonta uma expectativa muito difundida entre fiéis: a de que a conversão, sozinha, resolveria de uma vez todas as dores herdadas, os traumas guardados e as marcas deixadas por gerações anteriores. O que ela propõe, no lugar dessa promessa rápida, é um percurso, e um percurso que começa justamente onde o título sugere, no ato de fechar os olhos para enxergar aquilo que a pressa não deixa ver.

Uma promessa desfeita para que outra seja construída

O ponto de partida da obra é uma tese incômoda para parte do público evangélico a que ela se dirige. Aceitar Jesus, argumenta a autora, é o começo, não o fim. A libertação exigiria arrependimento, confissão dos próprios pecados e também dos pecados dos antepassados, além da renúncia consciente a práticas que teriam aberto brechas espirituais ao longo da história familiar. A frase que sintetiza esse diagnóstico é reproduzida no livro sem meias palavras:

"A crença de que basta aceitar Jesus para se livrar de todos os males é uma ideia equivocada e que pode trazer frustração em muitas pessoas."

Não se trata de negar a fé, e sim de organizá-la em etapas. A autora trabalha com a ideia de que a frustração de tantos convertidos, que aceitam Jesus e continuam a sofrer os mesmos males, nasce de uma compreensão incompleta do processo. É a esse vazio que Feche os olhos para ver: cura e libertação tenta responder, oferecendo um método em vez de um slogan.

Da infância atormentada ao nascimento de uma igreja

Boa parte da força do livro vem de sua camada autobiográfica. Mozelia de Almeida Pereira narra a própria infância atormentada, a conversão, o casamento, a atuação religiosa, o tratamento de cura interior que atravessou e, por fim, a fundação da Igreja Assembleia de Deus Fonte do que Clama, a ADFQC, onde muitas das experiências relatadas aconteceram. Essa trajetória não funciona como mero enfeite biográfico: ela é a prova de conceito de tudo o que virá depois. Quem escreve não fala de fora, mas de dentro de um caminho que diz ter percorrido.

É a partir dessa experiência que a autora estrutura o coração da obra, o chamado tratamento de cura interior. Ali se articulam quatro movimentos: o mapeamento geracional, a confissão de pecados, o tratamento de traumas e a eliminação de iniquidades. Cada um deles supõe que a dor presente tem raízes que precisam ser rastreadas, muitas vezes anteriores ao próprio nascimento da pessoa.

Iniquidade, trauma e as portas que se abrem

O conceito que mais organiza o pensamento do livro é o de iniquidade. Para a autora, práticas pecaminosas dos antepassados não morrem com eles: seriam transmitidas aos descendentes e poderiam explicar doenças, perdas, vícios, conflitos conjugais, fracassos financeiros e outros sofrimentos. O paralelo que ela constrói é biológico e deliberado. Assim como a medicina reconhece doenças hereditárias, ela sustenta que as iniquidades também se herdam. A imagem escolhida para descrever esse mecanismo é uma das mais marcantes do volume:

"A iniquidade opera como um cordão umbilical espiritual, que transmite o DNA espiritual de uma geração a outra."

Ao lado da herança geracional, o livro dedica atenção considerável aos traumas. Lembranças e experiências ocorridas desde a concepção, passando pela infância, adolescência, juventude e vida adulta, poderiam aprisionar a alma e exigir um trabalho específico de mapeamento, oração, perdão e libertação. A obra ainda constrói um vocabulário próprio para a batalha espiritual, distinguindo com cuidado termos que o senso comum costuma confundir: cativeiros, transgressão, iniquidade, pecado, obsessão, opressão, possessão e transferência espiritual. Escolhas, palavras, objetos, lugares, relacionamentos e práticas, segundo a autora, poderiam estabelecer legalidades para a ação de forças malignas, sempre em relação direta com as decisões humanas.

Por que a libertação às vezes não vem

Um dos capítulos mais úteis para o leitor prático é aquele que enumera o que impediria a libertação. A autora relaciona fatores como a mentira, a falta de arrependimento, a passividade espiritual, as motivações inadequadas, a dependência emocional, o envolvimento com o ocultismo e certos relacionamentos considerados espiritualmente nocivos. O tom, nesse ponto, é de responsabilização e não de fatalismo. A cura não seria um passe automático, mas um processo que depende da reação de quem sofre. É o que a obra afirma ao tratar da indolência espiritual:

Nas palavras do livro, "O eixo para a cura da alma reside no poder da reação, na iniciativa de mudar o que precisa e pode ser mudado com a graça de Deus." Há aqui uma concepção de agência que atravessa toda a obra, resumida também na afirmação de que "o mundo natural abre portas para o mundo espiritual" e que caberia à humanidade governar esse mundo natural. Cura e libertação aparecem, portanto, como processos contínuos, sustentados por fé, oração, jejum, vigilância, santificação e acompanhamento espiritual.

Testemunhos, orações e a quem o livro serve

A obra não se limita à exposição de conceitos. Reúne um extenso conjunto de testemunhos e casos, relatos de curas, libertações, revelações, sonhos, batalhas espirituais, maldições hereditárias e enfermidades interpretadas como de origem espiritual, muitos deles ligados às campanhas realizadas na ADFQC. Dedica ainda um estudo aos símbolos no mundo espiritual, examinando os significados atribuídos à cruz e à imagem do coração. E fecha com um repertório de orações prontas, de arrependimento, cura, quebra de maldições, libertação de traumas, vícios, iniquidades, relacionamentos, enfermidades e dificuldades financeiras, o que aproxima o volume de um manual de uso devocional cotidiano.

A quem essa contribuição se destina? Antes de tudo, a cristãos, e especialmente a evangélicos que buscam cura interior, tratamento de traumas, quebra de maldições e orientação para a oração. Mas o alcance da obra é mais amplo. Líderes, pastores e intercessores encontram nela um método articulado e um vocabulário organizado para a prática pastoral, sustentado por uma bibliografia que combina referências bíblicas, teológicas, psicológicas e antropológicas. O problema que o livro enfrenta, a distância entre a promessa de salvação e a persistência do sofrimento, é real e reconhecível para muitos leitores, e é essa honestidade em nomeá-lo que dá à obra seu peso.

Testemunhal em sua origem e pastoral em seu propósito, Feche os olhos para ver: cura e libertação chega ao catálogo como um convite a olhar para dentro. Mozelia de Almeida Pereira, presente também nas redes como @mozeliadealmeida, escreve para quem já cansou de respostas rápidas e está disposto a percorrer o caminho mais longo, aquele que, segundo ela, começa quando fechamos os olhos para enfim enxergar.

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Feche os olhos para ver: cura e libertação já está disponível na loja oficial da Editora Dialética.

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