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Capa do livro Literatura de cordel - Janela aberta na sala de aula: (re)afirmando a nordestinidade dos estudantes
Literatura de cordel - Janela aberta na sala de aula: (re)afirmando a nordestinidade dos estudantes, de ROGERIO ALVES ROSA · Editora Dialética

Existe um Nordeste que cabe numa única palavra: escassez. É o Nordeste dos livros didáticos, dos telejornais e das legendas apressadas, terra de seca, fome e retirada. Mas o que acontece quando os próprios jovens da região decidem pegar essa história pela mão e reescrevê-la em rima? É essa virada que Rogério Alves Rosa persegue em Literatura de cordel - Janela aberta na sala de aula: (re)afirmando a nordestinidade dos estudantes, obra que acaba de chegar ao nosso catálogo e que transforma o semiárido baiano em ponto de partida, e não em ponto final, de uma experiência de leitura literária.

Um professor sertanejo diante da própria terra

O livro começa onde o autor começou: no chão do sertão. Antes de propor qualquer método, Rogério Alves Rosa se apresenta como sertanejo e professor, alguém que conhece de dentro tanto a paisagem do semiárido baiano quanto os preconceitos que a cercam. É desse duplo lugar de fala que nasce a proposta teórica do volume, levar a literatura de cordel para dentro da sala de aula não como enfeite folclórico, mas como ferramenta de trabalho, capaz de articular leitura, oralidade, interpretação e produção de texto.

A escolha não é ingênua. Ao longo do primeiro capítulo, o autor deixa claro que a aposta no cordel é também uma aposta na potência formadora da palavra popular. O verso rimado, que muitos ainda tratam como coisa menor, aparece aqui como porta de entrada para o mundo letrado e para o exercício da própria língua.

"O cordel não só abre portas para o conhecimento. Ele embala sonhos, descortina horizontes possíveis, forma leitores, cria e recria usuários da nossa Língua Portuguesa"

A frase, retirada do livro, funciona como uma espécie de bússola para tudo o que vem depois.

De onde vem a rima que o Nordeste chama de sua

Antes de chegar às oficinas, o autor recua no tempo. O segundo capítulo dedica-se a reconstruir a história da literatura de cordel e o modo como ela se enraizou na região Nordeste. Origens, características, circulação nas feiras, função comunicativa, tudo é percorrido para explicar por que esse gênero se tornou parte da identidade nordestina. Rogério Alves Rosa discute a formação da cultura popular brasileira em suas relações com classe social, tradição, oralidade e folclore, e mostra o cordel consolidando-se com seus autores, suas formas fixas, sua xilogravura característica e sua influência sobre outras artes.

Nesse trajeto, um nome ganha destaque: Patativa do Assaré. A leitura de Cante lá que eu canto cá serve ao autor para pensar a experiência sertaneja, a crítica social e a afirmação da nordestinidade a partir da voz de quem viveu o sertão por dentro. É também aí que o livro introduz uma de suas teses mais firmes: a de que o Nordeste é, antes de tudo, uma construção histórica e discursiva. A imagem de uma região reduzida a seca, ruralidade, miséria e tradição congelada não é um retrato neutro, é um discurso que precisa ser examinado e ressignificado.

Repensar o semiárido a partir da escola

A terceira parte da obra desloca o foco da história para o presente e para a sala de aula. Rogério Alves Rosa defende que as representações negativas do semiárido podem ser desconstruídas por meio de uma educação contextualizada, que parta da realidade do estudante em vez de ignorá-la. Ele apresenta as características, dificuldades e potencialidades do semiárido baiano e argumenta em favor de práticas educativas voltadas à convivência com a região, e não à sua negação.

"A educação contextualizada é uma das práticas essenciais para a desconstrução dos estereótipos criados e difundidos por tanto tempo sobre o semiárido brasileiro."

É nesse cenário que o autor contextualiza a experiência concreta que dá lastro ao livro: o projeto de leitura desenvolvido no Colégio da Polícia Militar Alfredo Vianna, cuja história, organização e resultados educacionais são descritos como pano de fundo. A partir daí, o cordel deixa de ser tema e passa a ser instrumento, pensado como recurso de alfabetização, de letramento literário e de valorização dos saberes populares. As seções que fecham essa parte, com títulos sugestivos como "O cordel em terras áridas", discutem justamente o que esse gênero pode fazer pela aprendizagem e pela ressignificação das práticas pedagógicas.

Oficinas para redesenhar o sertão

A quarta parte é a mais prática do volume e mostra que a obra foi pensada para ser usada. O autor adota a sequência básica proposta por Rildo Cosson, adaptando-a com ênfase na escrita e na oralidade, e monta a partir dela um percurso de oficinas de leitura literária. O corpus é enxuto e certeiro: três cordéis, de Antônio Barreto e de Patativa do Assaré, escolhidos porque articulam ao mesmo tempo as dificuldades e as belezas do semiárido, sua cultura, sua resistência e seu orgulho.

Sobre esse material, Rogério Alves Rosa organiza três oficinas dirigidas a alunos do 8º e do 9º anos, voltadas a redesenhar o semiárido, identificar suas riquezas e retratar o sertão pelas mãos de quem o habita. O autor é transparente quanto ao estatuto do trabalho: as oficinas são detalhadas como proposta de aplicação, e os resultados são projetados, não colhidos em campo. O próprio livro reconhece o caráter teórico e hipotético desses efeitos esperados, listando limites e possibilidades da proposta. Essa honestidade metodológica, longe de enfraquecer o texto, o torna mais útil para quem quiser levá-lo adiante.

Devolver a autoestima como projeto pedagógico

No horizonte de todas essas páginas há uma finalidade declarada, e ela é tão pedagógica quanto afetiva. O que o autor busca não é apenas ensinar a ler um gênero literário, mas usar esse gênero para reconstruir a imagem que os estudantes têm da própria terra e de si mesmos. A obra defende que valorizar os saberes populares e a realidade local fortalece a identidade cultural e a autoestima de crianças e jovens nordestinos, cansados de ver o lugar onde vivem tratado como sinônimo de atraso.

Nesse sentido, o cordel funciona como a janela do título: um vão por onde entra outra luz sobre o sertão, feito de oportunidades, resiliência e pluralidade. É uma leitura que interessa de imediato a professores e estudantes do Ensino Fundamental II, sobretudo no semiárido, mas que também fala a pesquisadores de letramento literário, de educação contextualizada e de identidade regional, e a qualquer leitor disposto a rever o que pensa saber sobre o Nordeste. Ao reivindicar a rima popular como matéria de escola, Rogério Alves Rosa oferece menos uma receita fechada e mais um convite, o de olhar para o sertão e enxergar, enfim, a sua verdadeira riqueza.

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